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Fortaleza escrita: A pichação na paisagem urbana

Data da publicação: 9 de fevereiro de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Maria Tatyele Lima Alves

A metrópole impregnada por outdoors, banners e placas, delineia-se como um projeto urbano para ser vibrante, acessível e competitivo: a grafia urbana, expressa na pichação, nas cores do grafite e na colagem dos lambe-lambes, surge apropriando-se dessas mesmas ferramentas de comunicação visual, cujos elementos centrais dessa prática incluem o traço, a cor e a forma da letra, que variam conforme a técnica utilizada, seja no grafite artístico ou na pichação. É como se o lema comercial “quem não é visto não é lembrado” estivesse expresso pelas ruas. É uma cidade que se afirma e se distingue, onde o espetáculo da infraestrutura redefine os usos e seleciona as paisagens que devem ser vistas, mas que acaba atravessada por essas outras escritas.

Lembro-me de quando cheguei a Fortaleza há alguns anos. Como tantos que se aproximam desta capital, fui atraída inicialmente pelo magnetismo do mar, pela Praia do Futuro, pelo Meireles, pelo Mucuripe, por Iracema, por toda essa extensa linha de costa, pela promessa de litoraneidade; mas, no percurso que corta o tecido urbano, para além da faixa de areia, o olhar é inevitavelmente capturado por outra realidade. Entre viadutos, muros e fachadas, a pichação surge como uma presença constante. No trajeto entre o desembarque e o destino, percebi que a cidade é feita de rastros. No cotidiano, observo marcas de spray que acompanham o ritmo da metrópole e que, para um olhar atento, parecem estar sempre disputando os lugares mais visíveis: seja no prédio mais alto, no muro mais branco ou no viaduto mais frequentado.

Essa pichação que observo em meu cotidiano não é um fato isolado, mas algo consolidado no seio do processo de metropolização de Fortaleza. Assim como em muitas metrópoles pelo mundo, a cidade desenvolveu-se paralelamente ao crescente fenômeno da pichação. Ao percorrer essas ruas a pé, muitas vezes me pego encarando grafismos em alturas improváveis, questionando como ali chegaram. Penso, então, que a pichação se expande tal qual o próprio espaço urbano: como raízes que buscam frestas para crescer.

É claro que esse cenário gera tensões complexas e divididas. Em 2025, vi uma reportagem no jornal O Povo em que o título estampava: “Pichações maiores e mais visíveis tomam fachadas de prédios em Fortaleza”. A matéria descrevia como essas escritas têm se tornado mais audaciosas e presentes, ocupando escalas que reacendem o debate entre a liberdade do traço e a visão de quem acredita que as marcas apenas enfeiam a cidade. Se voltarmos à Fortaleza da década de 1990, percebemos que esse rastro de spray já era uma resposta pulsante ao projeto de uma capital que se queria global; desde então, os pichadores inserem seus grafismos como elementos de uma urbanidade.

Caminhando hoje por essa mesma cidade, é perceptível como o espaço continua tecido por diferentes dinâmicas e percepções contrastantes. O fenômeno levanta debates entre quem defende ou discorda, e quem observa que tais práticas geram mudanças estruturais, como a diferenciação jurídica entre o grafite e a pichação. Esta distinção foi estabelecida em 2011, por meio de uma alteração na Lei n° 9.605/1998 (Lei de Crimes Ambientais), que passou a não considerar crime a prática artística realizada com o objetivo de valorizar o patrimônio, desde que consentida pelo proprietário. 

No entanto, para além da norma, ambos continuam a disputar os mesmos suportes: as paredes e muros da metrópole, a visibilidade e a atenção, da base ao topo da cidade. São marcas que, como um “Olá, está me ouvindo?”, rompem a superfície, ocupam as frestas e se tornam parte da cidade.

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