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Carnaval e Tricentenário: A quantas batidas estamos dos 300 anos de Fortaleza?

Data da publicação: 17 de fevereiro de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Davi Costa Nascimento 

Fortaleza anuncia seus trezentos anos ao som dos tambores. “Na Batida dos 300” é o slogan que abre o Ciclo Carnavalesco de 2026 e inaugura, oficialmente, um calendário de celebrações pelo tricentenário da cidade. Com três séculos de histórias, avanços e transformações, Fortaleza se consolida como uma cidade em constante expansão e transforma o carnaval em vitrine urbana desse crescimento.

A festa se estica no tempo e se espalha no espaço. Tal comemoração já não se limita apenas aos quatro dias consagrados pela tradição cristã. Para crescer e se tornar importante em qualquer campo, é preciso investir no planejamento prévio, no esforço anterior, no pré-treino, no ensaio — ou, neste caso, no pré-carnaval. 

Em 2026, o Ciclo Carnavalesco de Fortaleza apresenta uma programação de pré-carnaval mais consolidada que os próprios dias oficiais da folia. Afinal, nada melhor do que um “pré” — seja de (pré)paração ou de (pré)dileção — para anunciar a batida dos tambores nas ruas, praças e praias da capital antes da chegada da tão esperada Terça-feira Gorda. 

É nesse jogo de palavras que a cidade revela suas escolhas. 

No campo da preparação, a capital cearense demonstra capacidade de polarizar, gerenciar, espalhar e expandir a festa pelo território. Segundo as informações apresentadas pela Prefeitura de Fortaleza, por meio da Secretaria da Cultura de Fortaleza (Secultfor), são 25 palcos distribuídos por 12 regionais, mais de 160 artistas e coletivos, cerca de 50 blocos ocupando ruas e quase 40 agremiações. 

Com investimentos em cerca de 23 milhões de reais, o Ciclo Carnavalesco de 2026 como um todo passa a ser apresentado como política de acesso, como direito à cidade, como festa para todos, como grande espetáculo urbano. Mas quando olhamos para a predileção, a fantasia muda. 

Nos últimos anos, a política de descentralização ampliou infraestruturas, levou palcos às periferias e diversificou opções para os foliões, inserindo áreas antes ausentes do circuito carnavalesco e abrindo alas a novas programações por toda a cidade. Contudo, esse movimento tem deixado à margem segmentos que sobrevivem com pouco investimento e escasso reconhecimento cultural. 

A intensa divulgação nas redes sociais e na mídia televisiva celebra o êxito de uma festa descentralizada, espalhada pela cidade. Mas silencia os coletivos que existem e resistem como manifestações históricas e relevantes do carnaval fortalezense. Enquanto a cidade amplia sua geografia festiva, segmentos culturais representativos do carnaval — e da própria sociedade — seguem confinados ao mesmo endereço e tempo de sempre. 

Maracatus, grupos de afoxé e, sobretudo, as escolas de samba seguem confinados à Avenida Domingos Olímpio, onde se apresentam nas noites de segunda e terça-feira, como se ali fosse o único espaço-tempo possível para suas existências. De acordo com dados da gestão municipal, mesmo com aumento de 10% no investimento em relação ao ano anterior, apenas R$ 2.435.400,00 (10,59% do total investido) são distribuídos à categoria de desfiles. Para além da competição formal entre si, estes grupos enfrentam uma disputa silenciosa com políticas públicas que pouco dialogam com suas demandas e expectativas frente ao crescimento da festa — em que sua participação continua limitada somente aos dias desfilados.

Essas agremiações resistem a um sistema que intensifica invisibilidades e aprisiona suas expressões ao rótulo do “tradicional”, como se tradição fosse sinônimo de passado imóvel e como se a cultura popular tivesse limites na construção do urbano. As escolas de samba, os maracatus e os afoxés são mantidos como símbolos, mas afastados como prioridade. Seu espaço, tempo e recursos na cena são delimitados. A cultura popular é celebrada no discurso, esquecida na prática. 

A cidade fala em descentralizar a festa, mas centraliza decisões. Espalha palcos, promove diversidade estética, mas limita a diversidade política e cultural da festa. Diante disso, cabe perguntar, afinal: a quantas batidas estamos de chegar aos 300? 

Pensar um carnaval para todos exige mais do que estrutura e grandes montantes de dinheiro investidos. Para uma celebração cada vez maior e mais representativa é preciso dar voz ao novo e ao tradicional. O que chega e o que permanece são igualmente fundamentais para uma construção mais democrática da cidade, da cultura e da própria festa.

 

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