Entre o calor e o caminho: reflexões sobre a mobilidade urbana sustentável de Fortaleza
Data da publicação: 23 de fevereiro de 2026 Categoria: Sem categoria
Por Francisco Thalvanys Marques Duarte
Fortaleza, como toda grande cidade, se move pelas ruas congestionadas, pelos ônibus lotados, pelas bicicletas que tentam encontrar espaço e pelas pessoas que, todos os dias, atravessam a cidade para trabalhar, estudar e viver. Em uma cronicidade anterior, já falamos da forte dependência do ônibus e de como essa realidade afeta a mobilidade. Agora, o olhar se volta para outro ponto igualmente urgente: a sustentabilidade.
Em meio à crise climática, os efeitos do aumento das temperaturas já não fazem parte de uma realidade distante. Eles se manifestam no desconforto térmico cotidiano, na sensação de abafamento e no surgimento de problemas de saúde, sobretudo nas áreas mais vulneráveis da cidade. Em uma metrópole emergente como Fortaleza, cresce o desafio de expandir-se sem ignorar os limites impostos pelo clima.
Uma pesquisa recente realizada pelo Prof. Dr. Antonio Ferreira Lima Junior do Laboratório Climas vinculado ao Departamento de Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC) acendeu um alerta: em mais da metade dos bairros de Fortaleza, as temperaturas de superfície chegam a 40°C, com maior incidência nas periferias. A principal causa é a redução das áreas verdes, fenômeno que tem transformado o debate acadêmico em manchetes e levantado uma pergunta incômoda: a cidade está preparada para enfrentar esse cenário?
Nesse contexto, a mobilidade urbana deixa de ser apenas um problema de deslocamento e passa a ocupar papel central na crise climática. Veículos movidos a combustíveis fósseis emitem gases de efeito estufa que, somados à escassez de vegetação, encontram pouco obstáculo para se concentrarem na atmosfera e intensificarem o calor que se espalha pela cidade.
Nos últimos anos, Fortaleza tem buscado alternativas para reduzir esse impacto. A expansão da malha cicloviária é um exemplo disso e rendeu à capital o título de terceira maior do país e a maior do Nordeste em extensão de ciclovias, segundo a Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike). No papel, o avanço é significativo. Na prática, porém, a falta de manutenção e o frequente desrespeito dos motoristas tornam o pedalar um exercício diário de resistência, justificando como a bicicleta ainda não se consolidou como uma das principais escolhas.
Os ônibus continuam sendo o coração do transporte urbano fortalezense devido à sua grande vantagem que é a capacidade de alcançar praticamente todos os cantos da cidade. O problema é que essa eficiência territorial vem acompanhada de um custo ambiental elevado, já que a frota depende majoritariamente do diesel, combustível que contribui diretamente para a poluição do ar e o agravamento da crise climática.
Em 2014, surgiu uma possibilidade de mudança. A Prefeitura testou o Hibribus, um ônibus híbrido elétrico/diesel capaz de reduzir drasticamente a emissão de gases poluentes e ainda economizar combustível. A iniciativa, no entanto, não avançou. Anos depois, em 2023, a Câmara Municipal aprovou um empréstimo de R$ 50 milhões para a compra de ônibus elétricos. Até agora, a promessa segue sem sair do papel.
No transporte sobre trilhos, o cenário é ambíguo. Fortaleza conta com o metrô e o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). A Linha Sul do metrô, movida a energia elétrica, desponta como a opção mais sustentável da cidade. Já os VLTs das demais linhas continuam utilizando diesel, repetindo as mesmas contradições ambientais observadas no transporte rodoviário.
Assim, Fortaleza caminha, mas ainda sem direção clara quando o assunto é mobilidade sustentável. Com exceção da Linha Sul do metrô, os modais existentes não denotam sustentabilidade, o que impede avanços mais consistentes. O poder público até ensaia iniciativas e discursos alinhados à pauta ambiental, mas raramente os transforma em ações genuínas e duradouras. Em tempos de crise climática, essa indefinição cobra seu preço, sobretudo de uma cidade que cresce, se expande e precisa decidir, com urgência, como quer se mover no futuro.
