A pressa das cidades que nos consome, ou é a vida que passa despercebida?
Data da publicação: 28 de abril de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES
Por: Larissa Sabrine Agostinho Menezes
O sociólogo e filósofo Zygmunt Bauman, ao escrever sobre a modernidade líquida no final do século XX, mais precisamente em 2000, ano marcado pela ascensão da globalização no mundo, pelo começo da expansão da internet no Brasil e por uma sociedade urbana cada vez mais acelerada, também refletida nas narrativas da televisão nacional como Laços de Família, já havia notado como a sociedade urbana, especialmente entre aqueles que vivem em metrópoles como Fortaleza, tende a preferir a liquidez dos momentos, como ao andar de bicicleta uma vez por semana, indo mais longe, no meu caso, em vez de pedalar todos os dias por distâncias menores, o que poderia construir algo sólido que fosse percebido ao longo da vida.
A verdade é que a vida na grande cidade alencarina é marcada por uma dualidade entre o passado e o futuro. Na vida urbana, a aglomeração vai nos levando cada vez mais à rapidez de querer resultados imediatos: “Para que vou pedalar uma distância tão curta? Isso nem vai mudar nada no meu corpo”. Nesse viés, como afirma o sociólogo Georg Simmel, “a base psicológica do tipo metropolitano de individualidade consiste na intensificação dos estímulos nervosos, que resulta da alteração brusca e ininterrupta entre estímulos exteriores e interiores […] tais são as condições psicológicas que a metrópole cria”. Sendo assim, vivemos apenas o presente, e nele acordo às cinco e meia da manhã com o barulho do despertador que já havia tocado duas vezes na lateral da minha cama, onde se encontra o meu celular. Ainda deitada, pego-o, e como tantos outros brasileiros, abro o WhatsApp e depois o Instagram. Sem ao menos dar conta do tempo, esvaem-se dez minutos, e só então decido que, enfim, seria naquele momento que iniciara o meu dia.
Levanto-me, com o brilho do sol refletindo por quase todos os móveis do meu aposentos pela janela de vidro que deixei entreaberta na noite passada. “O que terei que fazer hoje?”, questiono-me, ainda sentindo o meu corpo no automático e foi justamente no início do entardecer do dia anterior, quando estava saindo de bicicleta do bairro Henrique Jorge, na Regional 11, em direção ao Parque Rachel de Queiroz, localizado no bairro Presidente Kennedy, na Regional 3, quando, devido ao intenso fluxo de pessoas, luzes, automóveis e, principalmente, barulhos, decidi escrever esta crônica.
A pressa, para mim, aproxima-se do que a psicanalista Sônia Leite caracteriza como angústia, entendida como um sentimento que, por mais que não seja aceito, está presente na vida de todo ser humano e o acompanha ao longo de sua história. Nesse sentido, também ecoa a reflexão de Sérgio Vaz, em Flores da Batalha: “Insista, viver é luta constante, e a alma não pode estar presa ao corpo, cumprindo pena sob o olhar da muralha. E, enquanto a felicidade não vem, aprecie as flores da batalha”. Por fim, haverá dias em que o imediatismo chamará a nossa atenção, isso é fato, mas nada se compara ao sentimento de segurança construído ao longo do tempo, pois é somente assim que nos tornamos protagonistas de nossas próprias histórias.
