A Cidade em Libras: Visualidades do Cotidiano Urbano Surdo
Data da publicação: 11 de dezembro de 2025 Categoria: CRÔNICIDADES
Por: Emanuel da Costa Pereira
A visão é uma das nossas principais ferramentas para a percepção espacial: vemos os gestos, cores e luzes, que transmitem informações. Observamos o guarda de trânsito, que ergue uma placa para orientar a passagem; a pessoa que ergue o braço para um ônibus, pedindo para parar; o aluno que levanta a mão quando quer falar; aquela pessoa que, quando vai falar, gesticula bastante; o dedo apontado para indicar uma direção; a mão que é erguida como cumprimento ou simplesmente para pedir a bênção.
Nossa experiência de vida não se limita ao ato de escutar; mesmo em meio a toda a sonoridade, destaca-se a força de uma linguagem essencialmente visual. No entanto, pessoas surdas que utilizam a Libras, uma língua visual-espacial, ainda são frequentemente percebidas como algo incomum ou alheio ao cotidiano social. A possibilidade de comunicar-se, e de construir plenamente a vida, sem recorrer à fala ou à audição continua sendo vista por muitos como algo “de outro mundo”. Esse estranhamento deriva de um longo histórico de rejeição e exclusão das pessoas surdas, que há décadas lutam por condições dignas de inclusão na sociedade.
Apesar dos grandes avanços, Fortaleza, um exemplo de capital criada majoritariamente para quem ouve, reforça o distanciamento de surdos, pois privilegia práticas comunicativas baseadas no som. Assim, discutir a experiência surda no ambiente urbano exige deslocar o olhar: é preciso considerar como diferentes modos de perceber o mundo desafiam a lógica sonora dominante e evidenciam outras formas de presença pela cidade.
Enquanto uns escutam buzinas, motores, o aviso do semáforo, outros leem, decifram, observam. É um tipo de navegação mais sensível e, ao mesmo tempo, mais exigente. A visualidade, que parece tão abundante, nem sempre conversa com quem precisa dela para tudo. Para refletir se o surdo está incluído na Fortaleza de hoje, pense o seguinte: Em todos os lugares nos quais os sons são necessários, existem equivalentes visuais?
Viver a cidade no silêncio é descobrir que as luzes e letreiros que enchem Fortaleza não necessariamente iluminam todas as rotas. A comunicação visual, apesar de exuberante, nem sempre é pensada para ser acessível. É perceber que a inclusão, quando depende da boa vontade do acaso, vira um esforço individual, quase uma batalha cotidiana.
Porém, há beleza na resistência. Há criatividade na forma como cada pessoa surda se apropria do espaço urbano, criando caminhos onde faltam sinais, buscando nas expressões do mundo o que a cidade ainda não aprendeu a oferecer. Da Beira-Mar ao Cocó, do Benfica ao Centro, é sobre viver atento. E, muitas vezes, é ouvir com os olhos aquilo que os outros deixam passar. Cada gesto interpretado, cada pista visual captada, cada detalhe percebido no meio do tumulto urbano compõem uma cartografia própria, construída no dia a dia.
Quando duas pessoas conversam em Libras em meio ao ruído urbano, elas produzem um abrigo simbólico. Esse gesto simples deixa marcas: toca quem dialoga e também quem observa. Por instantes, o peso do concreto parece ceder espaço a uma clareira onde tudo pode florescer: a memória, o humor, o afeto e uma cultura que persiste, mesmo quando não é reconhecida majoritariamente pela sociedade. Esses instantes mostram que Fortaleza não se sustenta apenas no som, mas também nos olhares, na delicadeza e no contraste entre o desenvolvimento e os desafios por uma inclusão plena.
