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Cidade dispersa: quando o urbano se fragmenta e aprofunda desigualdades

Data da publicação: 9 de março de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Kaio Duarte Vieira

Pensar a cidade contemporânea é um desafio, pois exige de nós pesquisadores a capacidade de interpretá-la a partir de seus estilhaços. Em virtude dos aprimoramentos da geoinformação, podemos utilizar aplicativos como Google Earth e Google Maps, e visualizar como são numerosas as cidades do globo terrestre. Um bom observador, ao aproximar suas lentes para uma determinada cidade, seja em Campina Grande, no sertão da Paraíba, seja em Bolonha, capital da região Emília-Romanha, na Itália, notará que seu crescimento ocorre em todas as direções, cada vez mais distante do núcleo urbano adensado, ou seja, dispersa. No dicionário, a palavra dispersa deriva do latim, sinônimo de espalhado, separado, com várias direções.

Na década de 1970, um filósofo francês, Henri Lefebvre, defendeu a hipótese de que estamos diante de uma sociedade urbana, que emergiu a partir do processo de industrialização e que, por sua vez, destruiu a unidade da cidade. Tal fato resultou em um menor nível de solidariedade e de articulação entre as formas e os conteúdos que a compunham. Na cidade contemporânea, a unidade é posta em estilhaços e a era do urbano a determina. 

Isso reflete, por exemplo, no modo como são analisadas as dinâmicas de desenvolvimento econômico de uma determinada cidade, fatores como: diferentes graus de urbanização, da existência ou não de infraestruturas urbanas, de mão de obra urbana qualificada, de mobiliários urbanos e dos níveis de consumo, tornaram-se centrais. Dessa forma, na dimensão analítica, disperso é concernente à condição urbana que a cidade assume. A cidade dispersa não é comandada por uma única força centrípeta, ou seja, seu crescimento não ocorre tão somente no plano horizontal.

Imersa no fenômeno urbano, a cidade passa a ser constituída por diversos e distintos centros e periferias. Isso ocorre dada a produção do espaço urbano comandado pelo capital, a reunião e a simultaneidade do urbano são contraditórias, pois, conduzido pelo valor de troca, as diferenciações resultam em segregações, ou seja, em separações.

Em particular, os estudos da Rede de Pesquisadores sobre Cidades Médias (RECIME), chamam a atenção para a centralidade das cidades médias nas últimas décadas (1980 – atual) no processo de urbanização do Brasil. Nessas cidades, o caráter disperso é recente e a relação centro-periferia é tensionada mediante a lógica fragmentária.

Essa nova forma de estruturação do espaço urbano tem relação com a ampliação das redes de consumo, transporte, informações e de investimentos do capital imobiliário, outrora, centralizados nas grandes metrópoles, são cada vez mais difundidos. Deste modo, renovadas forças de dispersão e de centralização se impõem. A inserção de novas tipologias espaciais, como shopping centers, redes de super/hipermercados, áreas comerciais, condomínios fechados e/ou verticalizados, promovidos por grupos imobiliários, somados à política habitacional, complexificam a divisão social do espaço urbano.

As localizações, nos arrabaldes da cidade, alteram a própria noção do que é central e periférico. Em conjunto, essas novas tipologias residenciais e comerciais, que agregam áreas de lazer, são mediatizadas pelo consumo e alteram a forma de estruturação do espaço urbano da cidade. Fato que reorienta, paralelamente, as práticas espaciais dos citadinos. Mediante a lógica fragmentária, as segmentações e a diminuição das relações e interações sociais se constituem. A diferenciação socioespacial é valorizada no sentido negativo. Esse processo é denominado como fragmentação socioespacial.

Em paralelo, ocorre o aprofundamento das desigualdades e da segregação socioespacial. Nas cidades médias cearenses, Sobral e Juazeiro do Norte, respectivamente, 4.864 e 7.806 pessoas residem em favelas e comunidades urbanas (IBGE 2022). Em Sobral, 45.494 famílias estão cadastradas no CADÚnico (fevereiro de 2026), desse quantitativo, 45% estão em situação de pobreza (20.644). Em Juazeiro do Norte, 75.774 famílias estão cadastradas no CADÚnico (fevereiro de 2026), dessas, 42% estão em situação de pobreza (31.574).

Essas famílias, em geral, estão localizadas nas piores áreas da cidade, com insuficiência de serviços de uso coletivo, infraestrutura urbana, distantes do núcleo urbano consolidado. Seja em assentamentos precários, em antigos e novos conjuntos habitacionais populares, a desigualdade não é superada, ao contrário, remanesce como uma condição periférica.

Dessa forma, a cidade dispersa está imersa na ideia apresentada pelo filósofo e historiador Olivier Mongin: “Um espaço ilimitado que possibilita práticas limitadas e segmentadas.” O caráter disperso se expressa tanto nas suas formas quanto nos seus conteúdos, que acentuam processos de fragmentação e segregação socioespaciais. A lógica fragmentária diversifica e complexifica a estrutura urbana. A dimensão espaço-temporal da cidade é esfacelada a partir da sua condição urbana. Portanto, efêmera, não geométrica, esgarçada e profundamente desigual.

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