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Cidades inteligentes, urbanismo de plataforma ou puro marketing imobiliário?

Data da publicação: 2 de fevereiro de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Renan Salgado Almeida

A renovação massiva do meio técnico-científico-informacional, o aceleracionismo tecnológico, a ascensão da chamada inteligência artificial e as mudanças na reprodução do capitalismo e do trabalho na atual era plataformista são questões que se transmutam em desafios árduos e nos provocam angústia ao mesmo tempo que nos levam a pensar estratégias a respeito de qual será o futuro e o que ele nos reserva. “O que transforma o velho no novo, bendito fruto do povo será”, é com essa frase do icônico Belchior que nos recaem a mente inúmeros questionamentos e reflexões sobre contemporaneidade na qual vivemos. Será que as transformações tecnológicas deste século XXI estão impactando a nossa realidade para melhor? 

O prognóstico sobre essa pergunta ainda está longe de ser otimista nos nossos trópicos, ou seja, quando nos referimos à atual situação socioeconômica e habitacional na qual o brasileiro está submetido, nos deparamos com uma crise sistêmica e contínua com alarmantes índices de habitações precárias em que inúmeras famílias vivem no País, tudo isso alinhado à problemática da supervalorização imobiliária acima da inflação e preços de aluguel exorbitantes, sobretudo, nos centros urbanos do país. Ambos os fatores mencionados geram a receita que tem como principal ingrediente o fermento do asfixiamento social. De acordo com o IBGE, em pesquisa realizada no ano de 2019 em conjunto com a Fundação João Pinheiro (FJP), cerca de 45 milhões de pessoas ainda viviam em habitação precária, um índice extremamente preocupante, pois corresponde a nada mais, nada menos que uma a cada cinco pessoas sob essas condições.

Nesse sentido, fica intangível a aplicabilidade de políticas urbanas chamadas “inteligentes” ou modelos urbanos “smarts” sem que, antes de tudo, haja a superação da pobreza, do subdesenvolvimento e  dos velhos ditames das questões estruturais que perpassam as raízes do Brasil desde sua fundação, como aprendemos com Sérgio Buarque de Holanda. Seria, a título de comparação, buscar êxito em uma maratona sendo sedentário ou disputar uma Olimpíada acometido por uma grave lesão. Sendo bem realista, é preciso criar, em primeira instância, as condições necessárias de alcance da cidadania, como inferia Milton Santos, para , então, preconizar a aplicabilidade dos modelos de cidades inteligentes no país.

 A adoção da denominação “smart” no contexto urbano de planejamento também passa por certos desafios de compreensão, pois ainda sofre com várias generalizações e estigmas, principalmente em decorrência de ter sido um termo englobado pelo segundo e terceiro setor da economia global, ou seja, setor industrial e de  serviços/comércio, vide academias, automóveis, telecomunicações, etc. Muitas vezes generalismos acabam sendo perpetrados pelo imaginário popular, empregando o termo de maneira em que se confundem “smart cities” com urbanismo de plataforma ou, até mesmo, reproduzindo um reducionismo do termo como sendo mero sinônimo de adoção das TICs ou simples conexão à internet.

As definições de cidades inteligentes ainda são imprecisas e figuram-se em constante evolução no que se refere a literatura e a prática, o termo também tem variabilidade da sua função de acordo com o posicionamento político e cosmovisão de cada autor, podendo variar em uma postura mais acrítica e tecnocêntrica ou, no caso de quem vos escreve, um pensamento mais focado no ser humano, que enfatiza o direito dos cidadãos, movimentos populares, democracia direta, participação popular voltado ao desenvolvimento e manutenção do patrimônio material e imaterial das cidades, colocando em prática o papel crucial nos rumos das políticas urbanas, ou seja, ideias inspiradas no pensamento de Henri Lefebvre, priorizando uma visão “smart” que possui foco na dimensão humana e cooperativismo tecnológico.  

No tocante ao Brasil, persiste um desenvolvimento fortemente desigual e ineficaz das políticas de implementações urbanas smart”, muitas vezes o que ocorre na prática é um urbanismo de plataforma caricato, pautado no lucro, controle de dados, gestão neoliberal e protagonizado por empresas globais privadas que realizam a oferta de seus serviços tecnológicos, geralmente, ao próprio estado em qualquer uma de suas instâncias, por meio da modalidade de licitação em diálogos competitivos. Há também a oferta dos contratos de serviços as incorporadoras encarregadas por grandes projetos imobiliários particulares, como é o caso do Smart City Laguna em São Gonçalo do Amarante, aqui no estado do Ceará. 

Assim, no âmbito do  tecno-urbanismo “smart”, as políticas públicas voltadas à inclusão socioeconômica, preservação cultural/patrimonial e direito à cidade, ainda são muito deficitárias e incipientes, evidenciando que, majoritariamente, essas tais iniciativas de “smartificação” são projetos neoliberais excludentes, que priorizam práticas extrativistas e panópticas por meio da hiperconectividade e de características top-down(do topo para baixo) que não dialogam com a base(bottom) para suas implementações.

Fica evidenciado um modus-operandi clientelista, privado e voltado a camadas da população com maior poder aquisitivo ou com uma renda mínima que possibilita ter o acesso a financiamentos habitacionais aonde projetos imobiliários perpetrados por grandes construtoras/incorporadoras estão atuando no mercado de imóveis, como os empreendimentos Planet Smart City em Aquiraz-CE e D/Vert em São José dos Campos -SP, sendo esses exemplos de caso tipicamente pautados em campanhas de marketing e merchandising imbuídos com slogan “smart”, demonstrando que as iniciativas dos agentes hegemônicos de produção do espaço optam por projetos ITcondominia(Information technology + Condomínio),ou seja, condomínios fechados com infraestrutura e serviços digitais – espacialmente e socialmente segregados do restante da cidade – do que, propriamente, cidades inteligentes. Ficam perceptíveis iniciativas ainda muito insuficientes para suprir o déficit habitacional nacional e, até mesmo, uma política, digamos, segregacionista urbano-digital, tendo em vista um país com cerca de mais de ⅓(35,3%) da sua população vivendo apenas com salário mínimo e cerca de somente 7,6% com renda superior a cinco salários, de acordo com os dados do censo demográfico 2022 (IBGE), persistindo, assim, como país mais desigual do globo terrestre, segundo o relatório global de riqueza de 2025. 

A superação do patrimonialismo no estamento político-burocrático do Brasil, como alertava Raymundo Faoro em sua clássica obra os donos do poder, é um dentre os vários desafios, a lista seria longa, mas, dentre os principais, podemos mencionar a imprescindível necessidade de combate popular direto para que se cogite uma insurgência visando profundas reformas na questão habitacional e urbana do país que é historicamente cooptada pela problemática da especulação imobiliária, como também a verve de uma mobilização em prol de mudanças estruturais das políticas de estado que sempre favoreceram as elites em detrimento do povo, basta averiguarmos a verba anual direcionada ao plano safra, aos juros da dívida nacional ou aos supersalários de uma privilegiada camada do poder judiciário e legislativo, sendo esse último algo estarrecedor, pois o Brasil lidera o ranking de supersalários em escala global, de acordo com a pesquisa realizada pela organização da sociedade civil república.org. os gastos com esses supersalários chegam a R$20 bilhões em um ano, o equivalente a US$8 bilhões em PPC (paridade de poder de compra), que compara o poder aquisitivo de diferentes moedas. Para se ter uma ideia da discrepância, a atual verba destinada ao Ministério das Cidades esse ano não passa de R$650 milhões.

Também torna-se essencial mais um desafio, o de que o brasileiro desenvolva a capacidade de interpretar, usar, compreender criticamente e discutir politicamente os usos das tecnologias digitais num contexto atual marcado por desigualdade, autoritarismo, supressão financeira e capitalismo de vigilância, isso é o que chamamos de letramento tecnopolítico cidadão. Além disso, o desenvolvimento de tecnologias contra-hegemônicas é peça chave para a construção de lutas que possam enfrentar os ditames da realidade imposta pelo regime de acumulação flexível e capitalismo de plataforma. Portanto, cultura hacker, software-livre, cooperativas digitais e plataformas colaborativas, são alternativas importantes, tudo isso sendo desenvolvido não somente pela universidade de forma transversal, mas também visando uma aliança transformadora com a sociedade, buscando uma perspectiva de inovação social para que haja um enfrentamento ao corporativismo neoliberal das bigtechs, apostar em disrupção para que, de certa forma, seja possível atenuar as múltiplas crises e complexidades do nosso tempo, pois, simplificando o que alertava o brilhante Simondon, nenhuma tecnologia é neutra.

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