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Fortaleza distópica: desigualdade social versus o discurso do poder público e do mercado

Data da publicação: 2 de março de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Bruna Santiago

No segundo semestre de 2025, assisti à apresentação de Trabalho de Conclusão de Curso de Ingrid Pessoa, agora arquiteta e urbanista formada pela UFC. O título é “Cidade da Ficção: proposta de reparação de danos para o conjunto habitacional José Euclides” e foi escolhido com base em uma fala de uma liderança comunitária, Sérgio Farias (MTST), que inclusive estava na plateia ao meu lado. Segundo ele, o conjunto parece uma cidade fictícia, pois foi divulgado pelo Governo do Ceará como um lugar maravilhoso, como a realização do sonho da casa própria. Porém, na prática, o cenário foi outro. 

O Conjunto José Euclides está localizado no bairro periférico Jangurussu, em Fortaleza, e foi construído por meio do programa Minha Casa Minha Vida. Porém, desde sua inauguração, há diversos problemas resultantes da instalação de 2.994 unidades habitacionais em uma região sem provisão suficiente de infraestrutura básica. Não há coleta de lixo, manutenção da rede de esgoto, nem linhas de transporte suficientes para atender aos seus 13 mil habitantes. Essas famílias sequer têm CEP, o que dificulta o atendimento pelos Correios. 

Sérgio defende que o abandono por parte do poder público é tão aterrador que é digno de qualquer filme distópico, sem falar nos conflitos entre as facções que o transformaram em uma arena de guerra urbana por conta da ausência do Estado. Isso me deixou pensativa: onde mais encontramos essa Fortaleza fictícia? Então, me veio à cabeça a atuação do mercado imobiliário, com influência e capital suficientes para redesenhar a cidade constantemente.  

O marketing feito pelas empreiteiras e pelos corretores normalmente embeleza um discurso capaz de alavancar as vendas. Quem nunca viu anúncios de venda e aluguel de apartamentos no bairro da Aldeota, quando na verdade estavam no Joaquim Távora? Na Maraponga, localizados de fato no Mondubim? 

Porém, o que podemos chamar de ficção é o novo patamar de marketing que está sendo alcançado com os superprédios. Imponentes na paisagem, são arranha-céus de luxo vendidos como uma revolução na forma de projetar, de construir, de morar e, sobretudo, de investir. Mediante o pagamento de outorga à Prefeitura Municipal, as construtoras conseguem ultrapassar a altura máxima definida na legislação urbana da cidade, com construções chegando a até 170m. Surge, assim, a imagem de uma Fortaleza futurista aos moldes de Dubai, competitiva, de mercado aquecido por inovações. Contudo, com a consolidação dessa tendência, nosso horizonte mais provável é a praia sem sol em Balneário Camboriú (SC), assustadoramente distópica. Para além dos possíveis impactos ambientais, perguntamo-nos para que servem os superprédios com apartamentos tão luxuosos e grandes? Quem irá comprar de fato essas unidades?

Enquanto isso, o déficit habitacional em 2022, segundo relatório publicado em 2024 pela Fundação João Pinheiro em parceria com o Ministério das Cidades, é predominantemente de mulheres negras, chefes de família com renda domiciliar de até 2 salários mínimos.  Os superprédios roubam a urbanidade da cidade de outras formas, para além de reduzir o espaço urbano prioritariamente a uma mercadoria, e não a um lar. Tudo se resume à autosegregação e ao desejo de exclusividade. Cria-se, artificialmente, uma ilusão de lugar asséptico, no qual o entorno ou a população real que ali vive pouco importam, distantes graças aos muros altos e ao distanciamento físico das unidades em relação à rua. Quanto aos atributos naturais nos arredores, só importam os que estejam a uma distância segura, que se convertam em valorização.

Quem monta essa fantasia é o mercado, mas com o apoio da Prefeitura, que cria as condições para a aprovação desses projetos. A partir de 2019, o Plano Diretor de Fortaleza, instrumento básico que orienta a expansão e o desenvolvimento urbano, foi revisto por meio de um processo participativo e finalizado apenas em 2025. Seu texto traz diretrizes gerais que defendem uma cidade menos desigual e mais sustentável, contudo vários artigos foram flexibilizados após a aprovação de dois avassaladores “emendões” na Câmara dos Vereadores. A minuta de lei original foi arrasada, desconsiderando o trabalho da população, dos movimentos sociais e dos próprios técnicos da prefeitura ao longo desses 6 anos.

A versão publicada no Diário Oficial contém diversos incentivos e descontos nas outorgas para os empreendedores que conseguirão construir cada vez mais alto por uma contrapartida muito baixa, facilitando a implantação de mais superprédios. Em contrapartida, perdemos também a conquista das Zonas Especiais de Interesse Social de Vazio (voltadas para construção de Habitação de Interesse Social em áreas já infraestruturadas) e Áreas que deveriam ser de Proteção Ambiental, agora disponíveis para a ocupação e desmatamento facilitado, como foi o caso do Refúgio das Jandaias e da Floresta do Aeroporto. O contra-argumento oficial é que o novo Plano Diretor traz uma evolução em comparação ao de 2009. Mas ele atende ao que a cidade demanda atualmente, tendo em vista o abismo social entre o centro e a periferia e as catástrofes agravadas pelas mudanças climáticas?

Quem é a Fortaleza real? Apesar do que o mercado ou o poder público pode querer nos convencer através de uma imagem de cidade fictícia, ela de fato é desigual, opressora e vulnerável ambientalmente. Contudo, para que possamos (re)construí-la, não aos moldes de um sonho utópico, mas de modo a garantir o direito à cidade para todos, é preciso um choque de realidade: enxergá-la como ela realmente é.

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