Por:Antony Levir dos Santos Melo
Chega dezembro e as luzes voltam a iluminar a cidade, bela e contraditória. O brilho não se distribui de forma homogênea pelo território, mas se concentra em pontos específicos, cuidadosamente escolhidos. Ainda assim, basta o acender das lâmpadas para que a memória coletiva retome os muitos nomes que Fortaleza acumulou ao longo do tempo. Terra da luz, terra do sol. As alcunhas são tantas quanto as imagens que a cidade construiu de si mesma.
No Natal, essa relação se intensifica. As luzes que decoram a cidade não surgem apenas como ornamento festivo, mas como expressão visível de uma base material que antecede o espetáculo. Elas são sustentadas por um sistema energético produzido fora do campo visual imediato, mas profundamente enraizado no território. Por trás da estética natalina, está um conjunto de infraestruturas, decisões técnicas e estratégias produtivas.
O Brasil construiu, ao longo das últimas décadas, uma matriz elétrica marcada pela diversidade de fontes. No Nordeste, as condições naturais favoreceram a expansão da produção eólica e solar, transformando a região em polo estratégico de geração de energia. O Ceará se inseriu nesse processo com protagonismo, ampliando sua capacidade instalada e integrando-se aos circuitos nacionais de produção energética.
Esse movimento ganhou força após um período de elevada dependência das hidrelétricas, especialmente nos anos 2000. A diversificação da matriz elétrica buscou reduzir riscos e ampliar a segurança do sistema, incorporando novas fontes e redistribuindo a produção pelo território. Nesse contexto, o Ceará consolidou-se como importante produtor de energia no país. Segundo a Agência Nacional de Energia Elétrica (2024), o estado possui cerca de 2,6 GW de capacidade instalada em energia eólica e mais de 800 MW em geração solar centralizada, além da expansão da geração distribuída, o que o coloca entre os destaques nacionais nessas fontes.
Na contemporaneidade, a produção de energia assume novos contornos. A transição energética passa a orientar discursos e investimentos, reposicionando territórios e redefinindo estratégias de desenvolvimento. Fortaleza volta a ocupar lugar de destaque, agora associada a projetos voltados à produção de hidrogênio de baixo carbono. Os investimentos anunciados concentram-se na Região Metropolitana e no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, articulando infraestrutura, logística e produção energética.
O hidrogênio de baixo carbono surge como vetor de reconfiguração produtiva. Sua relevância está na possibilidade de articular a energia produzida no estado a novos usos industriais e logísticos, ampliando o papel estratégico do território. Mais do que um produto final, trata-se de uma extensão do sistema energético, capaz de reposicionar a cidade e o estado nas cadeias globais de energia. Ainda assim, os acordos energéticos firmados sob o signo da sustentabilidade nem sempre encontram correspondência plena nas práticas e nos efeitos concretos dessa produção.
As lâmpadas acesas em dezembro não apenas iluminam ruas e fachadas, mas materializam uma narrativa urbana sustentada pela produção energética. O brilho que encanta é viabilizado por parques eólicos, solares e infraestruturas que conectam natureza, técnica e território. A festa expõe, ainda que de forma silenciosa, os fundamentos produtivos que permitem essa iluminação.
Assim, o Natal de Luz se afirma como vitrine simbólica de uma Fortaleza sustentada pela produção de energia. A iluminação natalina transforma em paisagem urbana um sistema energético que se constrói ao longo do ano e fora do campo visual imediato. Ao acender suas luzes em dezembro, a cidade torna visível a base produtiva que sustenta seu brilho e reafirma, no espaço urbano, a centralidade da energia na construção de sua imagem contemporânea.
