O kitesurf como um indutor de urbanização litorânea no Ceará
Data da publicação: 15 de dezembro de 2025 Categoria: CRÔNICIDADES
Por: Francisca Walesca Castelo Branco Araújo
Se antes o turismo de sol e praia já ocupava um lugar de destaque no litoral cearense e no Nordeste como um todo, hoje soma-se a isso um movimento que não se vê, mas se sente: a coreografia dos ventos. Os ventos, de fato, levam ao Ceará. Permitam-me a frase de efeito, mas, nesse momento, ela se impõe, quase sozinha, afinal, é disso que se trata esta cronicidade: turismo e kitesurf. O turismo de sol e praia fez com que algumas localidades do litoral cearense assumissem um papel de destaque dentro das dinâmicas turísticas do estado. Essas áreas, que historicamente receberam investimentos para desenvolver a infraestrutura hoteleira e rodoviária, além de empreendimentos imobiliários, continuam a se consolidar como pontos estratégicos para visitantes de diferentes lugares. Aqui, o vento não é metáfora: é atração de fluxos.
Fortaleza, por sua vez, mantém-se no centro desse movimento, funcionando tanto como emissora quanto como receptora dos fluxos turísticos. Essa relação entre a capital e os destinos litorâneos moldou uma urbanização paralela à linha de costa, que conecta a metrópole aos vilarejos e praias próximas. Nesse processo, a paisagem natural foi transformada, e essas localidades passaram a assumir características do que se convencionou chamar de urbano, refletindo a presença de infraestruturas e serviços que dão suporte ao fluxo constante de visitantes.
Basta seguir a linha da costa para perceber que as pipas coloridas, longe de serem mero enfeite no horizonte, funcionam como uma espécie de bandeira anunciando que ali há fluxo, encontro. Em Cumbuco, no Preá e na Ilha do Guajiru, por exemplo, as pipas de kitesurf desenham caminhos que já fazem parte da paisagem, quase como se sempre tivessem estado ali. É certo que essas dinâmicas não acontecem isoladamente, nem se sustentam sem outros estímulos; afinal, o litoral cearense também se torna palco de grandes eventos, festivais e competições ligados a esses esportes, que alimentam e ampliam esse movimento.
O setor se consolida de forma consistente, e não é por acaso que a mídia acompanha esse movimento especialmente durante a alta estação dos ventos, no segundo semestre, quando a região recebe atletas e turistas de diferentes partes do mundo e amplia sua infraestrutura local. Recentemente, o Jornal Hoje, telejornal de alcance nacional, voltou seu olhar para o fenômeno no Ceará. A chamada “Ventos atraem turistas para o Ceará” reforça o que discutimos aqui: os ventos, de fato, levam ao Ceará. O céu pontilhado pelas pipas de kitesurf, imagem recorrente em reportagens de outros veículos e nas divulgações do próprio governo estadual, deixa de ser apenas registro estético para se tornar indicador.
E os números tratam de confirmar o que o olhar já sugere. Segundo a Secretaria do Turismo do Ceará, cerca de 168 mil turistas vieram ao estado em 2024 motivados pelo kitesurf. Somando surf, windsurf e outras práticas, o total aproxima-se de 300 mil visitantes. Afinal, o que esses números refletem? Compreende-se que isso vai além de um simples aumento no fluxo de visitantes: revela-se a urgência de um planejamento estruturado. O desenvolvimento turístico do estado precisa deixar de responder apenas ao impulso do mercado e alinhar-se a um projeto coerente, capaz de integrar crescimento econômico, ordenamento territorial e sustentabilidade ambiental. Ignorar essa dimensão implica reduzir o fenômeno turístico a uma lógica meramente mercadológica, dissociada do território que o sustenta, tornando-o vulnerável a crises futuras.
Como canta Ednardo, cantor cearense, “o vento a vida espalhou”, e, no Ceará, ele carrega não apenas visitantes e praticantes de kitesurf, mas também histórias e saberes das comunidades tradicionais que vivem em sintonia com o mar e o vento. O movimento das pipas sobre o litoral não é apenas espetáculo: é um lembrete de que todo fluxo que chega precisa se integrar, respeitando a presença dessas comunidades. Os números mostram a força do setor, mas também a necessidade de políticas e estruturas que acompanhem seu crescimento de forma tão natural quanto o vento que percorre o litoral, garantindo que turismo e tradição coexistem de forma equilibrada. Afinal, os ventos levam ao Ceará.
