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O Réveillon na Praia de Iracema e a cidade possível

Data da publicação: 29 de dezembro de 2025 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Juliana Oliveira Andrade

O poeta Ednardo cantava as velhas longarinas da ponte dos Ingleses e se perguntava se a lua ainda via desconfiada as mudanças que, reiteradamente, transformavam a noiva do sol. Do meu canto, do lugar de quem observa, penso se a lua ainda se surpreende com as estruturas metálicas que se erguem, disputando o horizonte com os prédios, anunciando a chegada do réveillon. Ou se ainda se espanta com o ritmo frenético dos milhares de pés desconhecidos que circulam disputando espaço na areia, enquanto as ondas quebram e são alegremente saltadas junto aos desejos de ano bom.

A metrópole ressignificada pela litoraneidade se metamorfoseia em metrópole festiva. A cidade do sol se rende à magia da noite e assiste ao despertar de um ano novo — 5, 4, 3, 2, 1. O céu explode em espetáculo. As taças se agitam no ar. Abraços. Promessas. Por um instante, tudo é novo. A festa se espalha pelo aterro da Praia de Iracema. Segundo estimativas da Prefeitura de Fortaleza, mais de um milhão de pessoas se reúnem nesta paisagem espetacularizada.

Nesse instante, a cidade vibra junto à orla em festa: cerca de 600 mil turistas contribuíram para injetar R$4,7 bilhões na economia local. Ao amanhecer, a cidade retorna lentamente ao seu ritmo. As estruturas metálicas, ainda de pé, escondem parcialmente alguém que dorme profundamente na praia, protegendo os olhos da claridade. E, de repente, a festa acabou.

No dia novo, uma SmartTv é conectada em um dos restaurantes da capital. Os garçons circulam apressados, com bandejas nas mãos, e não escutam quando a repórter do telejornal local informa que o réveillon de Fortaleza em 2025 foi o grande impulsionador da alta estação. Um ambulante caminha entre as cadeiras dobráveis na praia dos Crush e oferece, pela metade do preço, os copos estampados com imagens do rapper Matuê, atração da noite anterior.

Enquanto isso, o imaginário segue repercutindo o espetáculo. A cidade ensaiada convence. Convence o visitante, convence o investidor de que a cidade de Fortaleza é destino. E destinos são projetos urbanos. A concretude do destino exige infraestrutura, redefine usos e seleciona as paisagens da cidade que serão vistas. Ressignifica as velas do Mucuripe reproduzidas na arquitetura da Feirinha da Beira-Mar, enquanto os jangadeiros tradicionais são empurrados para a periferia da cidade.

A festa, que é por definição, transitória, inscreve-se de forma permanente no espaço urbano. O réveillon de Fortaleza apresenta uma das cenas principais da cidade-vitrine. Roteirizados pelo caráter contingente das gestões municipais, encenamos, na praia de Iracema, a cidade que almejamos: organizada, vibrante, acessível e competitiva, enquanto produto turístico. Uma metrópole que em um momento de festividade, se afirma e se distingue das demais cidades litorâneas nordestinas. Estar aqui é viver o “maior e melhor”, como afirmava às peças publicitárias do réveillon de Fortaleza 2024.

Pensando bem, a lua já nada vê desconfiada; as estruturas de metal criam expectativas a serem atendidas, o que condiz, certamente, com o chão concreto que as alicerçam.

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