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A mercantilização do acesso ao lazer nas orlas de Iracema, Meireles e Mucuripe

Data da publicação: 5 de maio de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por Regís Lima da Silva

O mar, antes visto como rota comercial ou local da labuta de comunidades tradicionais que Eustógio Dantas tão bem descreveu em seus estudos sobre a maritimidade em Fortaleza, tornou-se uma vitrine turística para a cidade litorânea contemporânea. Houve um tempo em que a costa era apenas fronteira ou obstáculo, sem o charme do espaço destinado ao bem-estar que nos é vendido nos dias atuais. O que era repulsivo virou objeto de desejo estético e sensorial, transformando a praia no coração palpitante da vida urbana, onde a batida das ondas se soma ao alargamento da faixa de areia e a padronização de equipamentos instalados ao longo da orla fortalezense.

O sol, antes mero espectador, tornou-se o principal holofote de um espaço que, aos poucos, foi se rendendo ao ritmo da lógica do lazer e do turismo. Onde o mar era, em outros tempos, uma fronteira de silêncio e estranhamento, hoje corpos em movimento parecem compor uma frenética sintonia. A urbe passou a enxergar a sua zona costeira com outra perspectiva, transformando a praia em um local definitivo, carregado de estilo de vida.

Alagoano, residente em Pernambuco, ao deslocar-me para os estudos da pós-graduação, torno-me contemplador e, ao mesmo tempo, consumidor do espaço ao caminhar pelas orlas de Iracema, Meireles e Mucuripe. Difícil não perceber a robusta infraestrutura à beira-mar. Bicicletários, Academias ao Ar Livre (AALs) e estruturas privadas para prática de atividade física são postas como “sentinelas da saúde”, insinuando acesso ao bem-estar. Esses equipamentos, dispostos ao longo dessas três praias, traduzem uma vontade de modernidade importada pela lógica mercadológica da eficiência e da performance.

A areia, antes domínio soberano do pescador e do banhista despretensioso, agora é fatiada por delimitações invisíveis. Percebi que as arenas de esportes demarcam o território de quem paga aulas particulares ou de quem busca o padrão do corpo esculpido exigido pela vitrine mercadológica da forma física. Trata-se de um processo que a psicóloga Jurema Barros Dantas define como culto ao “corpo sarado” e que ganha notoriedade ao associar-se à brisa do mar, ao suor programado e ao desempenho exigido pela sociedade do consumo. 

Por trás da entrega revestida de modernidade e padronização, entretanto, pude observar, ainda, uma possível engrenagem de exclusão, o que talvez não esteja visível aos residentes, uma vez que já se tornou invisível pelo hábito. A manutenção impecável dessas instalações públicas, que brilha sob o sol do Ceará, revela uma escolha clara de prioridades do poder público. Enquanto a orla se transforma em um cartão-postal, áreas periféricas aguardam por intervenções, evidenciando que a modernização não se distribui de forma igualitária, mas se concentra onde o valor imobiliário e a turistificação dão as cartas.

O lazer, que deveria ser espontâneo e livre, torna-se aos poucos um produto. O “morar perto do mar”, conforme abordou Dantas ao escrever sobre a Maritimidade nos trópicos, nos mostrou que o modo de vida ocidental levou os brasileiros a descobrir o mar. O acesso à praia como Iracema, Meireles e Mucuripe não é mais apenas sobre o pé na areia; é sobre ter acesso exclusivo a um estilo de vida padronizado e esteticamente controlado. As arenas de esportes, que surgem no fim da tarde, não são apenas espaços da prática de exercícios físicos, são mecanismos de territorialização que, sutilmente, segrega o banhista que se desloca de bairros mais distantes e transforma o espaço público em um cenário de distinção social.

As práticas marítimas contemporâneas são, na verdade, uma reconfiguração profunda do tecido urbano à beira-mar. Os instrumentos como bicicletas, patinetes e outros meios de micromobilidade, aparelhos de musculação e arenas esportivas, são os novos ícones dessa geografia do lazer, que, embora saudável em sua premissa, mascara as tensões socioespaciais. A urbanização das praias, ao se produzir sob a égide do turismo, transforma-se, cada dia mais, em uma mercadoria, ao invés de ser um direito de todos.

Ao final de uma das caminhadas pelas orlas de Iracema, Meireles e Mucuripe, entre a observação das ondas nos espigões durante um passeio de bicicleta, o suor da caminhada em outro trecho, e o alongamento nos instrumentos instalados pela faixa de areia, restou-me a seguinte reflexão: existe uma democratização do acesso ao lazer ou apenas se encena uma peça sobre qualidade de vida para um público seleto? A orla de Fortaleza, em toda sua beleza, seria um espelho das contradições percebidas nas praias urbanas brasileiras, onde a intenção maior é moldar esses espaços enquanto vitrine global mercadológica? Para além das inquietações, permanece o desafio de construir uma cidade que acolha a todos, sem que o acesso se torne um privilégio, mas sim uma realidade cotidiana para quem nela habita.

 

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