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A representação da paisagem de Fortaleza

Data da publicação: 23 de junho de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: Matheus Andrade Marques

Quando pensamos na cidade de Fortaleza, qual a primeira imagem que surge em sua mente? Claro, a depender das experiências, conhecimento, idade e outros elementos, a resposta tende a expressar uma variedade de possibilidades. Entretanto, no que se refere a sua paisagem, quando o intuito é pensar/representar a paisagem da cidade, comumente os residentes e/ou visitantes fazem uso da configuração paisagística correlata ao litoral da urbe (zonas de praias), evidenciando as valências litorâneas da capital cearense.

Apesar de ser um fenômeno recorrente em cidades litorâneas, a representação paisagística dessas cidades através de suas zonas de praias tende a ocultar outras formas, funções, dinâmicas e demais conteúdos que compõem a cidade. Desse modo, a Geografia, por meio do seu arcabouço conceitual, propicia alternativas de análise do espaço geográfico para além do recorte representado. Nesse sentido, realçamos neste texto algumas questões a respeito do referido contexto, instrumentalizando o conceito de paisagem ao fazer uso da cidade de Fortaleza. 

O ponto de partida para melhor apreensão das representações da cidade está relacionado a algumas indagações: Quem representa? Por que representa? A partir desses questionamentos, conseguimos obter subsídios para iniciar a análise sobre a representação da cidade de Fortaleza através de suas zonas de praias.

Ainda sobre as indagações levantadas, destacamos o poder público como um dos principais agentes que surgem como resposta para as perguntas, em razão das estratégias de disseminação da imagem da capital cearense como um importante destino turístico vinculado à vertente “sol e praia”. Essa realidade corrobora para a popularização de um ideário e constituição de uma imagem, que explica o fato de, ao pensarmos em Fortaleza, relacionarmos a cidade às suas praias. Inclusive, mesmo o fortalezense que não mora em bairros próximos às praias, tende a representar sua cidade dessa forma; o mesmo ocorre com pessoas que nunca estiveram em Fortaleza, a concepção que possuem tende a ser vinculada ao turismo litorâneo. 

No entanto, essa configuração espacial nem sempre foi assim, como retrata em seus escritos o professor do curso de Geografia da Universidade Federal do Ceará, Eustógio Dantas, ao salientar que até um dado momento (final do século XIX) a cidade de Fortaleza se organizou “de costas para o mar”, isto em função da centralização da dinâmica econômica estadual está situada no interior cearense, ou seja, eram as cidades interioranas que possuíam maior relevância. 

Este contexto é alterado ao longo do século XX, através da função portuária e posteriormente, com o impulsionamento das práticas de lazer e turismo voltadas ao litoral, período em que as cidades litorâneas ganham maior notoriedade. Dessa forma, Fortaleza passa a ressignificar sua relação com o mar, consolidando-se como uma urbe marítima, o que contribui para o estabelecimento do uso das zonas de praias a título de representação. 

  No século XXI, de forma recorrente, a cidade de Fortaleza é associada através de imagens das suas zonas de praias, evidenciando seu “potencial” turístico na vertente “sol e praia”, realidade que corrobora para o estabelecimento de uma imagem da capital cearense. Como principal exemplificação, apontamos a Avenida Beira-Mar e o seu complexo recreativo, que se estende da praia de Iracema, passa pelo bairro Meireles e finda no Mucuripe. Essa é a área que, de modo recorrente, é usada através de imagens como representação da paisagem da capital cearense.

A representação da cidade através desse recorte se fundamenta, principalmente, em razão da dinâmica turística e dos lazeres empreendidos nessa área,  porque ao longo de toda a avenida Beira-Mar a paisagem urbana da orla oferta aos seus visitantes espaços de convívio para prática de esportes, caminhada, ciclovias, lanchonetes, restaurantes, bares e outros equipamentos urbanos que caracterizam a orla fortalezense como uma espécie de parque a céu aberto. Essa dinâmica somada à presença de policiamento e, por conseguinte, sentimento de segurança, demonstram a presença do Estado na área, aspecto que não se configura espacialmente de forma homogênea nos demais bairros da capital cearense, ou seja, trata-se de uma paisagem diferenciada no espaço urbano fortalezense.

A paisagem diferenciada identificada na Beira-Mar de Fortaleza se explica pela atuação do poder público, no que diz respeito à sua constituição. Já a representação da paisagem, é fruto de uma estratégia de vender a cidade como destino turístico, executada pelos gestores em distintas esferas políticas, mas também por moradores que optam em representar a parte da urbe que melhor dispõe de oferta de serviços, estrutura, espaços de lazer e outros equipamentos urbanos. Essa é a parcela da cidade que constantemente é fotografada e postada em redes sociais e em outros canais de comunicação. 

Assim, a outra parte de Fortaleza, ou a maior parte da cidade, fica ocultada nessas representações, trata-se da urbe do cotidiano, dos bairros populares, dos espaços que a classe trabalhadora reside, das áreas que não possuem acesso aos serviços básicos. Portanto, a Fortaleza que olhamos nas representações, é a parcela da cidade que desejam nos “vender”, mas igualmente a outros destinos turísticos litorâneos, as representações das zonas de praias não são a cidade, no plano do real.  É preciso perceber a paisagem para além do visual, a fim de apreendermos todo o conteúdo presente na cidade.

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