Os ventos, os eventos e os municípios do litoral cearense
Data da publicação: 14 de julho de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES
Por: Vinicius Vitoriano Barbosa da Silva
Fortaleza, capital sertaneja litorânea, tricentenária, é conhecida como a cidade da luz e da brisa do mar. A capital cearense tem nos ventos um elemento marcante de sua paisagem e de seu imaginário social. Ao longo do tempo, esses assumiram significados distintos: no passado, eram associados às condições climáticas favoráveis ao tratamento de doenças pulmonares; na contemporaneidade, passaram a desempenhar papel estratégico em diversos setores como o de produção energética. Além de impulsionarem a geração de energia por meio dos parques eólicos, os ventos também fortalecem o turismo e o lazer, favorecendo a prática de esportes à vela e de modalidades como kitesurf e windsurf, reafirmando sua importância para a economia, a cultura e a identidade da cidade.
No Ceará, é comum a referência à chamada temporada dos ventos, que ocorre, sobretudo, durante o segundo semestre do ano, com maior intensidade entre os meses de agosto, setembro e outubro. Nesse período, os ventos alísios percorrem o litoral cearense, criando condições favoráveis para diversas atividades econômicas e esportivas. Sobre o mar, multiplicam-se as pipas coloridas do kitesurf, modalidade esportiva em que o praticante utiliza uma prancha impulsionada pela força do vento por meio de uma pipa (kite), tornando a paisagem litorânea ainda mais dinâmica.
Ao longo dos anos, observei com frequência esses praticantes no trecho de praia próximo ao bairro Pirambu, onde moro. Essa experiência desperta a atenção para o contraste entre diferentes formas de apropriação do mar. De um lado, os kitesurfistas, que utilizam o vento como elemento de lazer, esporte e turismo. De outro, os jangadeiros, que conduzem suas embarcações artesanais impulsionadas por velas, mantendo uma prática secular voltada ao trabalho e à subsistência por meio da pesca artesanal. Embora ambos dependam da força dos ventos para navegar, suas motivações, técnicas e significados sociais são distintos. Assim, o mar assume diferentes estéticas e funções, revelando a coexistência de práticas tradicionais e contemporâneas que expressam formas diversas de relação entre sociedade, natureza e território.
O contraste dos sujeitos e de suas motivações não é exclusivo do mar do Pirambu, mas se estende pelo litoral do estado, que tem adquirido popularidade para a prática do kitesurf. Somam-se a isso os eventos de esportes à vela, que transformam as praias em grandes arenas esportivas durante a temporada dos ventos. Em um desses eventos, a praia do Cumbuco, em Caucaia, obteve recorde mundial com o maior número de kitesurfistas velejando simultaneamente. Ao visitar a praia do Cumbuco, a paisagem chama a atenção, pois além dos inúmeros desportistas dispostos no mar, há também um elevado número de empreendimentos ligados ao kitesurf. Além disso, é perceptível a crescente atenção dada aos esportes à vela em diversos meios de comunicação, seja na televisão, no rádio ou nas redes sociais.
A força dos ventos leva esses esportistas que velejam por diversas praias, movimento que proporciona um sentido de liberdade e interação entre o esportista e a natureza. O vento que dá a liberdade parece também limitar a prática. Recentemente, em um final de semana fui a uma praia do bairro onde moro, durante o banho de mar percebi a chegada de um praticante de Wingfoil, um dos esportes à vela, ele estava vindo em direção à faixa de praia, onde eu e meus amigos estávamos. Conversei rapidamente com o esportista que saía do mar, o atleta logo me disse “hoje não tem vento”. O vento funciona como motor, sua ausência parece ser uma ancoragem. Assim, o vento é força. É o vento que movimenta os atletas dos esportes à vela por inúmeros municípios e lhes proporciona um amplo sentido de liberdade, que não se restringe aos limites políticos territoriais dos estados e municípios.
Esses ventos também parecem impulsionar a ocorrência dos eventos de kitesurf. Durante a pesquisa que realizei na elaboração do meu TCC, tive a oportunidade de investigar a fundo a correlação entre a ocorrência desses eventos e as características ambientais do litoral cearense. Quando comecei a reunir os dados do TCC, percebi que aquilo que o praticante havia me dito fazia todo sentido. Os eventos quase sempre aconteciam justamente quando os ventos estavam mais intensos. Não era coincidência. Era a própria natureza organizando o calendário esportivo.
Passei então a olhar esses esportes de outra maneira. Percebi que eles não ocupavam apenas o mar; também deixavam marcas na paisagem das cidades. No primeiro semestre de 2026, tive a oportunidade de visitar as praias do Cumbuco, Itarema e Preá, com um olhar mais sensível a paisagem, especialmente por estar desenvolvendo a pesquisa do meu Trabalho de Conclusão de Curso sobre esse fenômeno, no caso o kitesurf, notei o elevado número de empreendimentos que empregam o uso da toponímia “kite” em sua nomenclatura, as diversas escolas e meios de hospedagem que tomam o kite como tema e nicho do seu público. Essas paisagens nos indicam a relevância e proporção tomada por esses esportes, em especial o kitesurf.
Foi então que a curiosidade mudou de direção. Deixei de olhar apenas para o mar e passei a observar as cidades. Queria entender como os municípios estavam reagindo à chegada dos eventos. Descobri que o poder público também havia começado a olhar para esses ventos. Surgiam leis, incentivos e iniciativas que transformavam o esporte em parte da identidade de algumas cidades.
Pesquisando sobre o turismo cearense, descobri que essa não era a primeira vez que um elemento da natureza ganha novos significados. Décadas atrás foi o sol. Assim o astro rei que antes era visto como castigo virou símbolo junto das belas paisagens litorâneas do Ceará. Hoje, olhando para as campanhas de divulgação, para os eventos e para as leis municipais, fiquei com a impressão de que o vento está percorrendo um caminho parecido.
Hoje, as pipas coloridas cruzam o céu, os ventos ganham novos significados e os municípios reorganizam seus territórios em torno desse fenômeno. Talvez o vento sempre tenha estado aqui. O que mudou foi a forma como aprendemos a olhar para ele. Antes era apenas parte da paisagem; hoje também movimenta atletas, turistas, leis, eventos e cidades inteiras. No fim das contas, talvez o maior deslocamento não tenha sido o das pipas sobre o mar, mas o do próprio olhar lançado sobre o litoral cearense.
