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Pensar e compreender a cidade a partir de Absolute Batman

Data da publicação: 7 de julho de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES

Por: José Guilherme Rodrigues Santos

“Faz tanto tempo. Então, quem é você agora? Quem você se tornou na minha ausência? Está mais bonita, tenho que confessar. Mais alta, mais iluminada. Mas alguma coisa mudou. É a minha terceira volta, e ainda não consigo encontrar. Onde está o seu coração? Você tinha um centro pulsante, quente. Na verdade, mal reconheço você.” Em um trecho de Absolute Batman, essa reflexão sobre Gotham sintetiza uma das principais inquietações da mais recente releitura do Homem-Morcego publicada pela DC. Nessa versão, Bruce Wayne é filho de um professor e de uma assistente social, cresceu no Beco do Crime e trabalhou na construção civil. Sem fortuna, mansão ou mordomo, resta-lhe apenas sua determinação para enfrentar o crime organizado, financiado e articulado por um poderoso milionário.

Mas o que isso tem a ver com a geografia urbana? A narrativa aborda questões como a violência urbana, a utilização da política municipal em benefício de uma pequena elite e a mobilização da comunidade diante das transformações da cidade. Além disso, apresenta uma referência ao Sistema de Informação Geográfica (SIG) no segundo capítulo. Entretanto, o aspecto que mais chama a atenção é a ideia de que, para salvar Gotham, Batman precisou, antes de tudo, estudá-la. 

Já no primeiro capítulo, Alfred Pennyworth, um espião inglês, explica que o jovem Bruce Wayne é um estudante dedicado. Após abandonar a faculdade, Bruce passa a estudar diferentes áreas do conhecimento, como psicologia, história militar, mecânica, química e relações internacionais, preparando-se para enfrentar o crime. Entretanto, sua formação vai além dessas disciplinas: ele também se dedica ao estudo do saneamento básico, da rede elétrica, da construção civil e realiza estágio no setor de políticas públicas municipais da Prefeitura de Gotham. Seu objetivo é compreender o funcionamento da cidade, a produção de suas estruturas físicas e sociais e a forma como essas influenciam as políticas urbanas. Mais adiante, no quarto capítulo, ao se infiltrar em um baile da elite de Gotham, composta por vereadores, delegados e empresários, Bruce presencia discussões sobre formas de contornar a legislação ambiental e trabalhista. É nesse momento que articula os conhecimentos adquiridos sobre as políticas públicas e a infraestrutura urbana, percebendo como a exploração e a desigualdade são produzidas e reproduzidas na cidade. Essa reflexão convida o leitor a adotar um olhar crítico sobre o espaço urbano em que vive e a questionar as ações dos agentes responsáveis pela produção da cidade, reivindicando respostas para os problemas que afetam a vida cotidiana. 

A geografia também se faz presente no quarto capítulo, quando o Detetive das Sombras investiga como Gotham se insere nas redes de tráfico de drogas e armas em escalas nacional e internacional. A partir dessa análise, ele identifica formas de desarticular as cadeias logísticas do crime organizado, memorizando portos, rodovias e rotas de transporte utilizadas para o escoamento de mercadorias ilícitas. Com isso, conclui que é mais eficaz atacar as redes que sustentam o tráfico do que concentrar esforços apenas no combate às gangues de bairro. Em paralelo com o mundo real, esse tipo de análise espacial e de redes é amplamente utilizado por forças de segurança na formulação de estratégias e operações de enfrentamento ao crime organizado. Ao cidadão comum, por sua vez, cabe refletir criticamente sobre as políticas de segurança adotadas pelo Estado e avaliar se elas são efetivas no enfrentamento das estruturas que sustentam o crime em uma escala mais ampla. 

Absolute Batman, entretanto, não se limita à escala local. O principal antagonista do primeiro arco, “O Zoológico”, é o Máscara Negra, apresentado como um “magnata terrorista” que comanda uma rede global de criminosos voltada à desestabilização de cidades e países. Seu objetivo é abrir caminho para que seu contratante, o multimilionário Coringa, expanda seus investimentos e empreendimentos, entre eles as prisões Ark, onde são conduzidos experimentos envolvendo biologia, química e genética. Essa dinâmica remete ao conceito de verticalidade, formulado por Milton Santos, ao evidenciar a atuação de agentes externos que impõem seus interesses sobre o espaço local, provocando a fragmentação do espaço urbano. Em Gotham, essa influência corrói os laços comunitários: reuniões promovidas pela prefeitura transformam-se em disputas estéreis, policiais antes íntegros passam a aceitar vantagens oferecidas por criminosos para perseguir um vigilante, enquanto políticos utilizam a polarização como instrumento de disputa eleitoral. Em contraposição a esse processo, destaca-se Martha Wayne, mãe de Bruce, que busca reconstruir o sentido de comunidade por meio do diálogo e da confiança na solidariedade entre as pessoas. Nesse contexto, sua atuação representa um contraponto às forças de fragmentação e aproxima o leitor da dimensão humana dos conflitos vividos pela cidade. 

A rede global comandada pelo Máscara Negra, entretanto, depende de pontos fixos instalados no espaço local, como servidores e data centers. Esses elementos sustentam um Sistema de Informação Geográfica (SIG) capaz de identificar alvos no mapa da cidade e associar recompensas financeiras à realização de ataques, evidenciando o uso das tecnologias da geoinformação como uma técnica, no sentido proposto por Milton Santos, empregada pelas grandes firmas. Mas como Batman enfrenta uma rede global? A resposta está justamente na relação entre fluxos e fixos: embora a organização atue em escala mundial, sua operação depende de infraestruturas locais. Assim, com o auxílio de seus aliados e utilizando o próprio SIG do Máscara Negra, o Filho de Gotham realiza um ataque arriscado para destruir o servidor que sustenta a rede criminosa em Gotham. Com a interrupção desse ponto estratégico, a conexão entre a rede local e a estrutura global é rompida, fazendo com que os criminosos, privados das recompensas financeiras que motivaram suas ações, abandonem o confronto e se rendam. 

Qual é, então, a principal lição desse gibi? Antes de transformar uma cidade, é preciso compreendê-la. O estudo de sua história, de sua infraestrutura, de suas redes e das relações de poder que moldam o espaço urbano constitui o primeiro passo para qualquer processo de mudança. A ação, por sua vez, só ganha sentido quando fundamentada nesse conhecimento. Como afirma o escritor escocês Grant Morrison, o nome Action Comics, uma das primeiras revistas da DC, não se refere apenas ao gênero das histórias publicadas, mas, sobretudo, às ações que as pessoas realizam para construir um mundo melhor. 

Imagem: site “Fora do Plástico” (2026)

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