Sertão Urbe: Fortaleza, 300 Anos de Memórias
Data da publicação: 13 de abril de 2026 Categoria: CRÔNICIDADES
Autor: Frederico do Nascimento Rodrigues
O texto posto em tela apresenta algumas vivências que tive em diferentes fases da vida, nas quais realizei percursos urbanos pela cidade. Nasci na metrópole sertaneja; aqui construí memórias que permanecem vívidas. Ainda criança, percorri com meu pai a urbe da cidade, observando o ir e vir das pessoas, num ritmo frenético e fluido, típico da sociedade do desempenho. Vislumbrei transmutações diversas que não consegui compreender: crescimento urbano, desigualdades sociais, violência, aglomerados de exclusão e vulnerabilidade social.
Hoje, (re)visito algumas memórias e lembro-me dos tempos de escola, das disciplinas de História e Geografia, que me faziam “viajar” no tempo-espaço. Nesse sentido, pude fazer uma melhor leitura visual do espaço. A curiosidade foi aguçada pelas formas, funções, estruturas e processos presentes no espaço. Notei em mim uma inclinação para as ciências humanas e me apaixonei pela Geografia. Como diria Carlos Walter: “Me (de)formei em Geografia”, o autor menciona que se formou em Geografia e ela transmutou o olhar sobre a realidade.
Durante a graduação, aprendi que o urbano cearense é resultante do desenvolvimento da agricultura e da pecuária; esta última colabora para a ocupação do sertão, com o surgimento dos caminhos do gado, das feiras e das primeiras vilas. A capital emerge como importante espaço urbano, pois se tornou, no século XIX, um dos maiores centros produtores de algodão, impulsionando a capital sertaneja no circuito econômico mundial. Nesse contexto, tem-se a denominação de capital litorânea-interiorana que nutre uma dialética mar e sertão.
No hodierno, tem-se uma cidade litorânea-marítima, que redescobre sua ambiência marítima. Vislumbram-se resquícios históricos com o sertão, mas se desenvolve sob nova tônica, os espaços idílicos litorâneos. O litoral tornou-se um espaço luminoso, proporcionando um maior fluxo de pessoas por meio do lazer, vilegiatura, turismo e esportes náuticos. Para além do seu lado mar, nos seus 300 anos, Fortaleza enfrenta problemas de âmbito social, econômico, político e ambiental. A capital completa mais uma primavera, mas precisamos refletir: que modelo de cidade queremos? Como preconizou Lefebvre, temos “o direito à cidade”, então devemos acreditar que um outro modelo é possível.
